domingo, 30 de janeiro de 2011

Laços



Meu Deus! Como é engraçado!

Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas?
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece?
Vai escorregando... Devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento? Como um pedaço de fita?
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor é isso...
Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.


Maria Beatriz Marinho dos Anjos

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Trilha de Vida

Caminhos...
de tantos em outros
ainda não idos...

...vão surgindo pela chuva fina:
são os de terra em montanha,
esterco e eucalipto.

Caminhos
que abrem rios e as cachoeiras
... águas de Minas...

É tanta a terra com ares de paraíso
em que doura o sol
e brincam novilhos..

É tanta terra calejando os pés
da gente que vai
inventando o sentido...

Caminhos de Minas...
de tantos
e outros bem-vindos.

(Célia de Lima)

sábado, 22 de janeiro de 2011

A sete chaves

O sol brilhava através da vidraça, já passavam das nove da manhã. Eu ali deitada, coberta com um pano branco. Meu coração estava gelado, as minhas mãos frias... Na verdade eu não queria estar ali, somente um rosto me confortava e trazia esperança que tudo daria certo. Queria que segurasse minha mão, enquanto os outros exploravam minha intimidade... pra mim aquilo tudo foi um sonho horrível, fiquei com o orgulho em pedaços. Pessoas estranhas me examinando o tempo todo e um vai e vem de instrumentos que eu nunca tinha visto antes. Em determinado tempo fechei meus olhos, já havia passado umas duas horas e eu não aguentava mais tanto sofrimento, apesar dos anestésicos eu me sentia mal. Fiz de conta que estava bem longe dali, e que as vozes que eu escutava não me importavam, somente uma delas me trazia a realidade... mas essa só podia abrandar meu sofrimento. Por mim eu não voltava nunca mais, me senti uma ovelha oferecida aos lobos.
Sei que tudo foi pro meu bem, mas porquê teve que ser assim? Eu poderia ser igual as outras pessoas.
Ainda sinto calafrios às vezes, meu rosto ainda está parcialmente inchado e minha cabeça dói muito ainda.
Expus meu segredo ao mundo, apenas uma pessoa eu permitia saber da minha vergonha e agora que foi revelado me sinto ofendida, frágil até o dado momento não havia percebido minha realidade. Todos esses anos passando por cima desse problema e ainda dizem que sou vaidosa e soberba. Não sou nada disso, depois que cheguei em casa chorei por horas e queria sumir da face da terra, justo eu que fui criada para ser forte e encarar tudo, nunca estive tão exposta e indefesa.
Não sei quando vou ter que voltar, estou com muito medo, ainda mais se a pessoa que me indicou não estiver presente aí vai ser bem pior. Confio nele, só nele e quando não puder mais cuidar de mim, não sei o que vou fazer. naquele abismo que eu me encontrava só com seu olhar eu me tranquilizava. Me reestabeleço a passos lentos, nunca havia passado por uma cirurgia antes e essa foi só a primeira delas.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

PRECE À ALDEIA ( FRAGMENTOS)


E quando ali retornarmos

Verás que nunca nos fomos
Pois o lugar onde estamos
O lugar onde estaremos
É sempre o lugar que somos.




No Carmo das águas claras
Passa tudo sem passar
Passa o boi passa a boiada
Passa o tempo mansamente
E o passado anterior
Passa a rua que se inclina
No rumo daquela serra
Vai pela estrada infinita
Dobra a esquina secular


Passa a menina do doce
O doce despedaçar
Passa a criança da escola
A praça a sente passar
Passa tudo, nada passa
Passa o boi, passa a boiada
Passa a vida que declina
Verbos no infinitivo
Conjugando a solidão
Ao dobrado som do sino
Para o meu triste destino
Gaiola de bambu fino
Passarinho na prisão

Pois quando eu era menino
Cacei muito passarinho
Mas hoje não caço mais
Perdido nos carrascais
Escutava o seu chilreio
Mirava, acertava em cheio
Hoje não acerto mais
Eu era tão pequenino
Hoje sou ainda mais


Com minhas esguias pernas
Subia nas serranias
Para as lágrimas chorar

Lá no alto da Tormenta
Onde toda a força venta
Onde tão longe se avista
E molhava os teus telhados
Os teus telhados de musgo
Como chuva de lamento
Mas hoje não molho mais
As lágrimas purpurina
Molham o peito da menina
Que morreu de apaixonar-se


Eu vim de lá das colinas
Eu sempre vivi por lá
Lá nada passa, e se inclina
Na encosta da montanha
Tudo o que vem de cima
Tudo o que vem do alto
No mistério do cobalto
Negro ouro reservado
A madre a oferecer
Meu reino por um cavalo
Meu reino por um santuário
Meu reino por uma flor

O reino das altas terras
O reino da solitude
Reino das águas claras
Caindo pelo grotão
Reino de gotas douradas
Reino em lírico verdor
As aves que aqui gorjeiam
Cantam o teu sofrimento
Mas aqui, embora doa
O povo tem mais amor


Passa a serra e a tormenta
Passa tudo sem passar
A cancela aberta passa
O queijo a me perguntar
O que passaste, menino?
Por aqui bem devagar
Passa tudo, passarada
Passa o boi, passa a boiada
Passa a lua equilibrada
No desespero da noite
Da madrugada o apelo
Na sombra do meu cabelo
Passo a passo o pesadelo
Espreitando meu sonhar


Passa a velha encarquilhada
Passa a lua a suspirar
A vida não deu em nada
Nada me veio a calhar
                                                                          ANA MIRANDA
























segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

...sinto uma ansiedade muito grande, vontade insana de aventuras contida nesse corpo limitado. Uma revolta que não sei de onde surge, dum passado distante talvez... Infância interrompida, alegrias frustadas, tudo era proibido... pecado.
Queria poder voar... Bater minhas asas feito um condor e ver a planície distante. Longe de tudo, não precisar comer, dormir, só voar e mais nada.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Vasculhei no fundo do meu ser razão pra tudo aquilo. Qual o real motivo de tamanha transformação? Estou mal, não de doença do corpo mas sim da alma. Um vazio muito grande toma conta de mim. Uma sensação de inutilidade profunda, estorvo permanente. Já não me apego a mais nada... Só vejo um vazio, não sinto mais a alegria das cores. Só lágrimas inundam meus olhos, eu não sei mais quem sou...tudo é grande absurdo. Sinto um frio estranho, algo de ruim está  acontecendo comigo, sinto isso. Meu coração me diz, não posso evitar tamanho sofrimento.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Carne - Júlio Ribeiro

A obra A carne de Júlio Ribeiro é um romance naturalista publicado em 1888 que aborda temas até então ignorados pela literatura da época, como divórcio, amor livre e um novo papel para a mulher na sociedade.

O livro conta a história da garota Lenita, cuja mãe morrera em seu nascimento e o pai educara-a ministrando-lhe instrução acima do comum.

Lenita era uma garota especial, inteligente e cheia de vida. No entanto, aos 22 anos, após a morte de seu pai, tornou-se uma jovem extremamente sensível e teve sua saúde abalada. Com o intuito de sentir-se melhor, Lenita decide ir viver no interior de São Paulo, na fazenda do coronel Barbosa, velho que havia criado seu pai. Lá, conhece Manuel Barbosa, o filho do coronel. Manuel era um homem já maduro e exímio conhecedor das coisas da vida, vivia trancado no quarto com seus livros e periodicamente partia para longas caçadas; vivera por dez anos na Europa, onde se casara com uma francesa de quem separara-se há muito tempo. Lenita firmara uma sólida amizade com Manuel, que, aos poucos, vai se revelando uma tórrida paixão, no início, repelida por ambos, mas depois consolidada com fervor em nome do forte desejo da "carne".

O livro narra a ardente trajetória desse romance singular, marcado por encontros e desencontros, prazer e violência, desejo e sadismo, batalha entre mente e carne.

A história caminha para um trágico desfecho a partir do momento em que Lenita, encontrando cartas de outras mulheres guardadas por Manuel, sente-se traída e resolve abandoná-lo; estando grávida de três meses, casa-se com outro homem.
Manuel, não suportando tamanha traição, suicida-se, o que comprova o resultado final da batalha "mente vs carne". No início, triunfam os prazeres da carne, no trágico final, os desenganos da mente.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo









Olhai os lírios do campo é um dos romances mais famosos de Érico Veríssimo. Um verdadeiro best-seller que resultou até em novela na Argentina. A narrativa da primeira parte é feita em flashback. Eugênio vai lembrando de momentos da sua vida enquanto se dirige ao hospital onde está Olívia.

Eugênio era um menino tímido e medroso. Teve uma infância pobre, era ridicularizado na escola e tinha como objetivo máximo a ascensão social, faria de tudo para um dia vencer na vida. Achava que o que tinha era feio e sem graça, das roupas até o seu próprio corpo. Não se entrosava com os demais colegas de classe e por isso devotava todo o seu tempo aos estudos. Sonhava em deixar de ser simplesmente o Genoca para ser o Dr. Eugênio Fontes.

Tinha pena do pai, o alfaiate Ângelo, com quem não conseguia se comunicar facilmente. O seu irmão, Ernesto, não esmerava-se na educação e acabou perdido na vida. Com muito esforço, Eugênio consegue cursar Medicina. Na Faculdade conhece Olívia - única mulher da turma. Na festa de formatura os dois se aproximam e fazem sonhos e confissões juntos, sobre o futuro. Tornam-se grandes amigos.

Durante a revolução de 30, após uma operação mal sucedida no hospital militar, Olívia convida Eugênio a sua casa e passam uma noite de amor. Dias depois, Olívia recebe uma proposta para trabalhar em Nova Itália, e novamente se entrega aos braços de Eugênio.

Durante um atendimento médico, Eugênio conhece Eunice Cintra - filha de um riquíssimo proprietário. Eugênio casa-se com Eunice com objetivo único de ascender socialmente. O sogro trata de arranjar um emprego de fachada ("assinar documentos") numa de suas fábricas. Eugênio começa a freqüentar a alta sociedade, mas não se sente parte dela. O seu complexo de inferioridade aumenta ao ver os contrastes desse outro mundo, de emoções contidas, de meias-palavras. Conhece pessoas como Filipe Lobo, construtor obstinado a construir o "Megatério", um arranha-céu, mas não se importava com a família. Infeliz e perturbado, Eugênio reencontra Olívia que lhe apresenta a sua filha, fruto do último encontro dos dois, Anamaria. Ao chegar no Hospital onde estava Olívia, recebe a notícias de sua morte.

A segunda parte passa-se após a morte de Olívia e é intercalada com a leitura das cartas que ela escreveu para Eugênio sem nunca ter enviado. Eugênio toma coragem e separa-se de Eunice - apesar de todos os incovenientes sociais. Vai além, passa a ser um médico popular, com idéias de socializar a medicina. Trabalha com o Dr Seixas, um velho médico que sempre atendeu aos pobres. A memória de Olívia, nas cartas, nas fotos ou no olhar de Anamaria, o fortalece quando pensa nas dificuldades.

O original da obra, com correções a mão feitas por Érico Veríssimo, encontra-se hoje na gigantesca biblioteca de José Midlin.




terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Caminhos Contrários

Difícil, conquistar um novo amor...ainda mais quando a pessoa escolhida se nega a ser amada.
Não há mais nada à fazer...
O amor não brota em todos corações da mesma maneira.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Renda-se, como eu me rendi.
 Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
 Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.


Clarice Lispector

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.



Fernando Pessoa

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sinto sua falta a cada segundo, queria tanto que estivesse aqui comigo. Te deixo livre, amar não inclui sofrimento e angústia, confesso que sofro... Se eu pudesse te prenderia junto a mim. Mais prefiro te perder a vê-lo triste. Apesar da tristeza lhe fazer companhia... Percebo seu sofrer, desejaria ser a pura felicidade. Mas não posso tudo e bem sabes!
 Meu grande amor da minha vida, não tenho vergonha de dizer...gritaria ao vento se ele me trouxe-se você, como eu gostaria que nossos destinos se cruzassem novamente.
Bom dia meu amor... minha vida!

Oráculo de Cabala

Sobre o amor


O amor e a tosse são manifestações expansivas. Tentar conter a tosse resulta em movimentos físicos que nos delatam mais do que a própria tosse. O amor oculto promove gestos, olhares, intenções, hesitações e movimentos desajeitados. Acreditamos que revelar nosso sentimento nos coloca numa situação de desvantagem. No entanto, é importante perceber que o amor não se esconde. A tentativa de escondê-lo nos faz manipuladores, insinceros e um pouco tolos. Tal como quem se contorce para não tossir, esconder em demasia o amor nos enfeia.

Aos poucos a mocinha se prepara, se enfeita, brinca com as gotas de orvalho e se deleita com o elixir dos ventos... A Bela Moça demora, mas...